Rabiola
estou quase a mandar o Vento te levar: como um campo cheio de dentes-de-leão, muito do amor é melhor na perdição.
Empinar pipa é coisa de moleque, Caetana!
Mamãe me puxava para dentro de casa, ainda que estivesse com a pipa em pleno voo, a rebentar o céu de leveza. Ai, ai, ai! Me solta, me solta!, eu gritava em protesto, a liberdade roubada. Se não queria que eu fosse que nem moleque, por que então me deu esse nome de homem?
Atribuía seu mau-humor aos acontecimentos recentes e deixava as rosas murcharem.
Passara a deixar as cortinas todas fechadas em casa: era sempre noite, já que papai havia morrido e ela morria aos poucos também. Não tinha coragem de dizer a palavra “morte”; muito menos de combiná-la com o que estava acontecendo com papai. Quem me explicou tudo foi vovó.
Vou te ensinar o que é morrer, Caetana:
(Arregalei os olhos, atenta, com faísca de medo e coragem por dentro)
Todo mundo tem um prazo de validade, igual a bolacha no pacote; e a data é determinada por Deus, ninguém mais… Quando chega o dia, que a gente não tem como saber quando vai ser, Deus desce lá do Céu e manda a alma da pessoa aqui embaixo subir com Ele, porque o corpo já venceu, ficou estragado, e a alma precisa sempre de um corpo bom pra ficar.
(Entendia que apenas morria quem tinha asas na alma, para poder ir ao Céu; e demorava a processar tudo; que morte tinha a ver com liberdade)
Mas, vovó…
Diz, meu amor.
Essa tal de alma aí… como é que ela consegue ir lá pro Céu? É de avião, é?
Não, menina… - e se ria, talvez da própria invenção - só sobe a alma que tem asa.
Quê?
É… aquelas almas que têm asa, igual os anjinhos da igreja, sabe?
Sei…
Então, só essas podem subir pro Céu. As outras, as das pessoas maldosas, más… vão pra debaixo da terra, junto com o corpo estragado.
E o papai, então? A alma dele vai pra onde?
Pro Céu, ué. Pra onde mais?
Hum… Então só o corpo do papai que ficou ruim, vovó? A alma era boa?
Isso mesmo, Caetana. A alma de quem é bom sempre voa, voa, voa…
“Voa, voa, voa…” ecoava em mim à medida que crescia sem papai e com mamãe quase se indo também. Na escuridão que tornara nossa casa, ela encolhia os ombros aos móveis, às panelas, até à geladeira, como serva das vontades de cada eletrodoméstico, de cada legume, de cada canto que lhe falasse faça isso, cozinhe isso, empurre pra lá, tire a poeira daqui. Enquanto a alma de papai flutuava, a de mamãe, de tão estragada, escondia-se, pouco a pouco, debaixo da terra.
E me levava com as minhas asas para lá também.
Papai era feirante, sempre tivera como profissão a das mãos rápidas que fazem cestas de palha e animaizinhos de origami. Como era habilidoso com os materiais que somente servem se estiverem em alguma arte, catava os restantes e me fazia pipas aos finais de semana. A cada vez, eram cores e modelos diferentes. Fascinava-me vê-lo na produção do que sem asas voava, bonito, no céu cinza, sem ter de fugir das árvores, porque se deixava prender nos ramos e era resgatado por alguém cujo único requisito era ter uns palmos a mais de altura. Pensava que queria ser assim, igual pipa, quando crescer e imaginava que mamãe também podia ser uma pipa se ela quisesse tirar os pés do chão um pouquinho.
Mamãe, olha a pipa que o papai fez pra mim!
Hum… que legal.
Posso ir lá fora empinar?
Claro que não, Caetana. Que ideia é essa!
Mamãe!!! (snif) mas por que não?
Ora, Caetana! Ainda pergunta? Porque empinar pipa é coisa de menino!
Não é não! Olha aqui, a pipa é rosa! Não tá vendo?
Mas rosa é cor de todo mundo, Caetana. A pipa é que é só de menino.
Mas eu quero irrrrr!
Não vai e pronto e acabou, Caetana! Não vai!
E me puxava, até o quarto, eu ainda com a pipa não mão. Jogava-me na cama, me levantava a saia e me dava três ou quatro mãos espalmadas nas coxas. É pra aprender a não botar as asinhas de fora!, dizia, sem saber que eu nem imaginava que poderia voar. Mas com papai sempre a me dar as pipas de presente, ficava difícil não sentir o gosto de um certo desejo de atingir mais alto. Fui guardando cada pipa dentro do guarda-roupa. Misturava-as com as roupas, todas uma veste só, um só traje que eu gostaria de combinar: sair assim vestida de liberdade.
Até que papai perdeu o movimento. Os dedos ficaram parados, preguiçosos do trabalho e impossíveis de voltarem à destreza de antes. É esclerose, o médico dissera para mamãe. Não tem cura nem tratamento; agora quem manda é o tempo, completara, com olhos baixos de quem não sabe consolar o que não pode ser consolado.
Papai ficava, então, nos fundos, onde realizava o trabalho, sentadinho, pequeno e imóvel, no banquinho de madeira que fizera com os restos das caixas de frutas da feira, apenas a olhar as antigas criações, talvez imaginando outras novas... Voltava à casa somente para dormir, apoiando-se nas paredes no início e, perto do fim, arrastando-se no chão com mamãe a lhe puxar os bracinhos finos para cima até colocá-lo no colchão. Ninguém conseguia levantá-lo para que alcançasse a cama. Nem mesmo as asas da sua alma que foi embora.
Vovó, você acha que a minha alma tem asa também?
Claro que tem, meu amor. Você é boa, não é?
Hum… eu acho que sou. Mas às vezes faço malcriação…
Ah, mas eu duvido muito! Quem disse que você faz malcriação? Sempre tão boazinha!
A mamãe fica nervosa comigo quando eu peço pra empinar pipa.
Ué, mas isso é coisa natural de criança, Caetana!
Ela fala que é só pra menino. Que, como eu sou menina, não posso sair assim a empinar pipa na rua, correr pra ela voar mais alto… ver as asas dela em ação… deve ser tão bonito empinar pipa, vovó!
Olhava-me com pena a vovó. Coisa de menino…, pensava. Explicara-me, anos mais tarde, que quem não reconhece a própria liberdade quer fazer a prisão dos outros também. E faz sentido. Mamãe, após a partida de papai, piorou com as manias. Não abrira mais as cortinas, nem acendia as luzes; deixava a televisão ligada todo o dia e toda a noite, para que a única iluminação que tivéssemos fosse a do aparelho que nos deixava menos sós, nos falava como se de nós soubesse as preferências e nos enxergava pelos olhos das atrizes das novelas. Deixara todas as flores de casa murcharem. As rosas do beiral da janela já nem conheciam mais água ou luz; a terra dos vasinhos secara.
Um dia, amanheceu chovendo.
Mamãe perdera a chance de proteger as plantas, que chuparam toda a chuva, como se lhe fossem lágrimas ocultas de quem não quer ser descoberto chorando. O cheiro da fertilidade subira do chão e descera do céu e mamãe não conseguira escapar:
Vai ficar tudo verde e florido, Caetana.
Pois é…
Você… você… - gaguejava com os olhos encaroçados e a pele derretida abaixo, velha e triste.
O que foi, mamãe? Pode falar.
Você quer… quer emp… você quer emp… empinar a pipa?
(Um espanto) É… sér… é sério?
Não mais me respondera. Correu ao quarto, abrira as portas do guarda-roupa. Tirava todas as peças, rápida e furiosa, até encontrar as pipas ao fundo, bem guardadinhas, as asinhas coladas, a aguardarem o momento de…
Voar! Vamos voar, mamãe! - gritava na rua ensopada com a pipa a correr-me atrás, já derretida pelos pingos, mas ainda sobrevoando o asfalto do jeito que dava - como se faz na vida. Não vi coisa alguma. Éramos apenas eu e a pipa, em uma, e mamãe, a assistir todo o espetáculo. Não compreendi o gosto que tivera ao ver-me tão inocente, nem lhe vi a expressão triste transformar-se em alegria. Apenas lembro a mensagem última que me deixara:
Está na hora de soltar as asinhas, Caetana…
E subiu ao Céu de asas nas mãos.


Às vezes acordamos mais sensíveis ou algo nos atravessa, carapaça adentro... e ocorre um pequeno milagre de sentir.
Obrigado por isso!