A vida em si
Tem gente que é âncora. Tem gente que nos faz lançar ao mar.
Tá caindo umas coisas em cima do carro… Ouviu?
Ouvi. Mas nem ligava. Pouco importava que chovia forte, que havia raios no céu, que a usina lá no fundo pegava fogo por dentro.
Eu só queria… - comecei - continuar.
E o silêncio.
Passava os dedos entre os meus, mais como compensação dos erros do que por carinho. E era triste o olhar. Parecia que havia guardado, durante muito tempo, informações sobre si que somente saberia que existiam quando as contasse a alguém. Era muito sério comigo. Levava as coisas ao pé da letra, preocupava-se demasiado com a imagem: sentia-se na obrigação de se esforçar. Ele era muito sério comigo. Talvez, por achar que merecia menos, tenha interrompido tanto esforço despendido nas primeiras semanas, quando íamos a locais públicos e não nos importava ficar na chuva. Agora, era tudo um esconderijo. No carro, na rua escura, cada um no seu quarto. E os bichos a caírem na lataria do automóvel em noite de domingo quente.
Eu só queria… continuar, sabe?
Sei. É que eu tô fechado…
Hum. Mas precisa de coragem, não é? Coragem pra embarcar na gente, como se fosse uma viagem de barco mesmo.
Como assim?
Eu e você somos uma viagem de barco, mas apenas aquele início, a expectativa. Eu entrei no barco primeiro, senti o balanço, abri as possibilidades de conhecer à frente, mesmo com muito medo. Enquanto você tá ainda na beira, a decidir se vai entrar ou não. Porque você tem medo da náusea que a viagem pode causar… Só que, às vezes, a gente não pode ter medo. Não quando se trata de pessoas.
Ele me olhava como se notasse que estava louca.
No começo, eu estava cansada da solidão. Entrei em uma padaria, em agosto, depois de estacionar o carro numa praça e ponderar por dez minutos o que eu havia de fazer ali. Caminhei muito antes de decidir entrar. Ele estava sentado em uma mesinha, logo abaixo da janela, com uma flor vermelha ao lado, que era incompatível com a cara séria que tinha. Passei e ele disse boa tarde. Foi o começo e o fim de tudo. Desde aquele dia, não deixamos de nos falar. Mas fomos deixando de nos percebermos. E que algo triste tornar, em poucos dias, o amor um desconhecimento.
Ele sumia aos poucos.
Passou a se isolar em casa - uma casinha pequena, cheia de plantas, cheia de livros, cheia de lembranças. E eu passei a me isolar nele: despersonalizei. Mas não notava o quão perigoso era depender de uma inconstância tão grande. Depender de uma agenda que eu não conhecia, de um recado esperado até domingo à noite, e que não chegava. Nunca chegava… nunca bastava. Perdi nos olhos a curiosidade fora dele; perdi alguns fios de cabelo e ganhei outros mais brancos; deixei de passar perfume, de regar as flores, de imaginar que vontade de descansar. Perdi-me de mim. E que perigo! O tudo se tornando, de repente, nada.
A chuva barulhava no carro e eu tinha fome.
Eu só queria… continuar, sabe? - ressoava…
Ele tinha ainda o silêncio, trêmulo nas mãos.
Eu acho que todo mundo ou é pedra ou é vidraça - disse, depois de não mover os lábios por mais de meia hora. E eu já fui muita vidraça… Mas com você sinto essa necessidade estranha de ser pedra. Sólido, firme, mas cruel e violento. Eu não sei o que é, mas sei que te machuca…
Não! Não me machuca não! - disse. Eu não sou vidraça. Eu não quebro fácil.
Ele riu.
Sabia que eu escondia uma fortaleza por trás dos braços finos e dos olhos marejados. E a chuva caía, embaçava os vidros daquele automóvel que já havia me dado tanta história pra contar. Meu corpo era amassado. Tentava esticá-lo, mas as marcas sempre ficam.
Eu quero continuar…
Eu acho melhor não.
Mas… você é pedra, eu sou vidraça, já entendi. É só você não atirar, fica tudo bem…
Eu sei… é que essa história do barco… me pegou um pouco.
Como?
Sei lá. Você embarcou com coragem, com plano… eu fui só pra seguir a correnteza.
Então essa viagem toda, essa náusea… foi pela vida em si?
Pode-se dizer que sim. Não fui por você ou por mim; fui pela experiência…
Perdi a vontade de chorar. Ou de insistir. Ele era muito profundo quando se esforçava. Saí do carro, os pingos nos cílios, na espera de que ele me olhasse de volta. Ligou os faróis, o motor quente. Deu a partida. E eu: ensopada, caída do barco, finalmente, no mar.

